terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Filme 2012: Mais uma Crítica ao Cristianismo, ao Conservadorismo e a Cultura Norte-Americana


Quem foi aos cinemas assistir 2012 deparou-se com não poucos simbolismos, muitos efeitos especiais, um roteiro pífio, e uma mensagem altamente gnóstica com ares messiânicos. São tantos pontos a se comentar que o filme, apesar dos pesares, mereceria uma análise mais detalhada, pelo menos para que as intenções ali engendradas ficassem mais claras.

Confesso que vi o filme de manhã, e por notar essa simbologia, mesmo que bem de relance, não será possível averiguar profundamente toda a semântica ali apresentada. Trata-se, então, simplesmente de uma provocação, para que criticas mais profundas sejam efetivadas.

John Cusack, o protagonista do filme, é um escritor fracassado, que trabalha como motorista de Ivan, um empresário russo, ex-pugilista, que por alguma razão, não se sabe qual, ficou milionário, alias, bilionário, visto que a quantia paga por aqueles que querem salvar-se do apocalipse é a bagatela de 1 bilhões de euros por cabeça, no caso do russo, ele e seus dois rebentos somam a quantia de 3 bilhões. Somente a titulo de conhecimento, a que se lembrar que em praticamente todas as interpretações escatológicas, oriundas do século XX para frente, a Rússia está envolvida de alguma forma.

Além de escritor fracassado, não porque livro que escreveu seja ruim, mas provavelmente vítima da falta de recursos para divulgação, é um pai ausente. Seu filho admira mais o namorado da mãe, rico cirurgião plástico, do que o próprio pai. A filha nutre certas afinidades com o pai, porém é infantilizada, a menina, apesar da idade, ainda usa fraudas e têm manias por chapéus. Nessa imagem, logo vêm a idéia de que na inocência da filha, o pai, mesmo ausente, continua sendo o herói, enquanto para o filho, em tese mais maduro, o pai é um bosal.

Porém o filme não começa com Cusack. O primeiro personagem importante a aparecer é Adrian Helmsley, o geólogo responsável por levar as “más novas” ao governo norte-americano. Interessante notar algo sobre Helmsley. De fato, é ele parece ser o verdadeiro herói do filme. Ao contrário da personagem de Cusack, Jackson Curtis, Helmesley é bem sucedido, têm certo transito entre os grandões de Washington D.C Ama as pessoas e preocupa-se com o próximo. Enquanto Curtis luta para salvar a família, Helmsley tenta salvar a humanidade. Mas, para dar credibilidade a Curtis, os roteiristas do filme, Harald Kloser e Roland Emmerich, fazem o Dr. Helmsley ler o tal livro de Curtis.

A propósito, o livro chama-se "Adeus Atlântida”. Para quem não se sabe, Atlântida foi citada pela primeira vez pelo filósofo grego Platão, em sua obra “a Natureza”. No diálogo platônico, Atlântida é retratada como uma ilha, com um forte poder naval. Sua localização é irrelevante, mas os feitos de Atlântida não. Sua força bélica, e comercial possibilitaram a conquistou da Europa e do continente africano. Era, de fato, uma nação poderosa, controlava os mares, fonte de comunicação e escoamento de riquezas. A seu tempo, foi uma grande potencia, com um povo poderoso, porém ela afunda no oceano, devido a fúria dos deuses.

Já aqui, nessa imagem da ilha mitológica, delineia-se a intenção do filme: “Uma propaganda anti-americana.”, ou melhor, contra o conservadorismo norte-americano. “Adeus Atlêntida” é a mensagem. Adeus nação poderosa. Adeus povo forte e conquistador de outras nações. Agora, tal nação irá sucumbir frente ao um poder muito maior que o seu. Nesse momento, ares de tragédia grega ecoam.

A parir daí os símbolos começam a ficar mais delineados. Logo no começo do filme, o Dr. Helmsley chega à Índia, para encontrar seu colega, o Dr. Santam. Sem querer forçar a hermenêutica, o nome do doutor que, foneticamente, principalmente em língua inglesa, é muito semelhante a Satã, chama atenção. Santam é pedra fundamental na trama, apesar de praticamente não aparecer. Ele é indiano. Trabalha no laboratório montado em uma mina abandonada, uma espécie de mundo subterrâneo e ainda o lugar é extremamente quente.

É Santam que traz as informações que darão o veredicto: destruição da terra, isto é, os neutrinos solares estão cozinhando o planeta. Mais tarde, no final do filme, Santam reaparece para salvar o dia, avisando que uma grande onda está vindo de um lugar inesperado. O pobre Dr Santam, então, morre engolido pelas forças das águas. O motivo? Os EUA, muito ocupados salvando a própria pele, esqueceram de resgatá-lo em tempo oportuno.

Em meio à destruição do mundo, no vaticano, o Papa e clérigos, uma referência clara a religião, rezam clamando por clemência, assim como diversas religiões do mundo. Em determinado momento, quando a câmera aponta para um dos cardeais, que por sua vez, acompanha com o olhar as rachaduras surgindo na capela sistina que, em fim, alcançam o teto separando o homem de Deus na célebre imagem da criação de Michelangelo. O símbolo é claro, expressa idéia fundamental: “Deus abandonou sua criação.” A próxima cena será a destruição do Vaticano. É o fim da religião.

Para a salvação da humanidade, os governos do mundo, o G8, organizam um plano de ação. Irão construir navios enormes, chamados Arcas, a exemplo da história bíblica, para abrigarem 400.000 pessoas. Dois detalhes: o número de pessoas que adentraram na Arca de Noé foi exatamente 8, um grupo de 8, um G8. Outro detalhe, um dos filhos de Curtis se chama Noah, Noé, será ele que encontrará a solução para um dos problemas que ocorrerá na Arca em que sua família está. Esse seria o caminho da salvação. Aqueles que podem, comprarão seus lugares. Animais serão levados para preservar a fauna. Os membros dos governos terão lugares garantidos, assim como um série de pessoas previamente escolhidas para repovoar a terra.

Mas haveria um problema. Onde construir essas monstruosas embarcações, em um tempo extremamente exíguo, sem que ninguém note o que está acontecendo. A resposta é inesperada: China. Quando os “Clientes” chegam para conferir as encomendas, uma frase ecoa de um dos personagens: “Foi tão rápido, somente os chineses para isso.” Sim. É a eficiência do comunismo. Os países ocidentais não poderiam, até ficam abismados, vendo a tamanha eficiência da logística chinesa.

Para chegar até a China, mais precisamente no Himalaia, Curtis viaja em um avião de Las Vegas, passando pelo Hawai que mais parecia uma cena do Inferno de Dante, aterrisando no gélido território Chinês. Lá, sua família será ajudada pelo “bom samaritano”, o monge budista Nima. Agora a religião Cristã, já totalmente debelada, é tão somente trocada pela filosofia oriental.

É claro que falta o vilão da história. Um enredo tão previsível não poderia deixar de tê-lo, mas nem mesmo o vilão é lá grande coisa. Talvez a tática seja simplesmente ter um vilão pífio, para deixar a culpa com a natureza e o dedo que move a criação. O presidente dos EUA, sempre pintado como salvador da pátria, dessa vez morre pelo bem da nação.

Interessante notar que ele é negro, um homem honrado, quem sabe até um “nobel da paz”. Salva a filha, mas escolhe sofrer com aqueles que não vão poder entrar no “baluarte da salvação”. O vice-presidente morre em um acidente de avião, e o presidente da câmera não foi encontrado, sobra para Anheuser, o político branco e pragmático, porém “egoísta”, tomar o lugar de presidenciável. Seria esse o vilão do enredo, mas nem chega a tanto. O máximo que faz é servir de contra-senso ao Dr. Helmsley, que acaba transformando-se no real líder da situação, ao meu ver, o verdadeiro protagonista do folhetim.

O filme acaba concluindo que o homem não tem culpa de nada. Tudo está acontecendo porque deveria, de fato, acontecer, e os Maias sabiam disso. Se existe uma força por trás de toda a desgraça, essa somente pode ser o todo transcendente que não perdoa a humanidade. Mais do que isso, se alguém detiver o conhecimento necessário, que aquilo que o Dr Santam oferece, o os governos (homem) poderá salvar-se a si mesmo, a revelia das forças naturais.

É certo que muitos daqueles que tentaram avisar o mundo foram devidamente silenciados, afinal ninguém quer acabar com a esperança, mesmo que esta seja inóspita. Destarte existe de fato uma salvação, uma arca onde animais e pessoas poderão abrigar-se até que as coisas na terra se acalmem, onde aqueles que conquistaram seus lugares poderão perpetuar a espécie humana.

Ai está o messianismo. O G8 é o messias que cria sua comunidade de eleitos, e os salva. Trata-se de um messias gnóstico, não por desvalorizar o corpo, mas por arrogar a si a potencialidade de sua salvação. Não há sinais nem de fé, nem de religião nas Arcas.

No fim das contas, a África tornar-se-á o grande refúgio da humanidade. A exemplo do anterior “Um dia depois de amanhã”, onde os países ricos são destruídos e buscam refugio nos paises pobres, agora o continente tantas vezes esquecido transforma-se no topo do mundo.

Somente mais um filme anti-americano, anticristão de um terrorismo psicológico catastrófico imanente, que cumpre o papel de levar a mesma mensagem de sempre. Essas foram somente algumas observações, mas como disse, uma análise mais detalhada seria interessante, pelo menos para revelar as intenções subliminares.

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